sexta-feira, 31 de julho de 2009

XVIII DOMINGO COMUM (Jo 6, 24-35)

1. "Subiram às barcas e foram à procura de Jesus em Cafarnaum... Jesus disse-lhes: estais me procurando não porque vistes sinais, mas porque comestes pão e ficastes satisfeitos".
A multidão que procura Jesus, no evangelho em pauta, representa o conjunto de toda a humanidade, todos e cada um de nós em particular, quando buscamos satisfazer nossas fomes, nossos desejos e nossas necessidades humanas, ora nas coisas materiais (pão), ora nas pessoas (Jesus). Num primeiro momento, estas pessoas do texto, somos todos nós que buscamos a felicidade, via de regra, nos bens materiais, tais como: casa, comida, bebida, emprego, conforto, etc., e naquilo que eles nos podem proporcionar, efetivamente. Por outro lado, num segundo momento, somos nós, quando fazemos com que a nossa felicidade dependa das pessoas, dos outros, daqueles com quem nos relacionamos.
2. "Esforçai-vos não pelo alimento que se perde, mas pelo alimento que permanece até a vida eterna".
Jesus Cristo nos mostra que este caminho de felicidade que escolhemos, definitivamente, é um falso caminho. É bem verdade que a nossa mente desavisada facilmente se inclina a pensar que estaremos satisfeitos e felizes se possuirmos um certo número de riquezas, um certo número de posses, uma certa quantidade de prazer. Mas, se estivermos bem atentos ao que se passa, logo perceberemos que, quanto mais possuímos, mais desejamos possuir; quanto mais bebemos desta água, mais temos sede, mesmo que, se por um momento, nossa sede se acalme. Nestas observações sobre o funcionamento do nosso desejo, vemos que os objetos do desejo, em lugar de acalmá-lo, de preenchê-lo, não fazem senão aprofundá-lo cada vez mais. É, por isto mesmo, que Jesus tenta introduzir-nos num outro caminho, num outro pão, numa outra fonte de felicidade. A pergunta é: isto é possível? É possível conhecer uma felicidade que não seja dependente dos objetos de felicidade?
Ora, a maior parte do tempo nós somos felizes por causa de nossa saúde, por causa de uma posse. Nossa felicidade tem dependido de uma realidade externa. É hora de convidarmos o nosso psiquismo a conhecer uma felicidade não-dependente. Não dependente das circunstâncias, não dependente dos acontecimentos. Uma felicidade que seja uma fonte no interior de nós mesmos. E mesmo que os acontecimentos externos sejam nefastos ou muito difíceis, podemos sempre provar desta fonte. Afinal, nós todos conhecemos algumas pessoas que têm tudo para serem felizes, mas não são. E conhecemos também outras pessoas que não têm nada para serem felizes, nenhum destes objetos com os quais identificamos a felicidade e, no entanto, testemunham uma paz interior de fazer inveja.
3. "Não foi Moisés quem vos deu o pão que veio do céu. É meu Pai que vos dá o verdadeiro pão do céu. Eu sou o pão da vida".
Aqui, Jesus nos fala da necessidade de buscarmos um alimento diferente. Ele nos ajuda a perceber, verdadeiramente, de que temos fome, afinal de contas. Trata-se de perguntarmos: o que desejamos essencialmente quando comemos algo? Qual é a nossa fome fundamental? Será que não estamos buscando a comida errada, por uma vida inteira? Aquela que, como diz Jesus, nunca nos saciará plenamente? Não estaremos buscando a coisa certa no lugar errado e com os instrumentos também errados?
Eu costumo pensar que a nossa felicidade não está na satisfação dos nossos desejos, das nossas fomes humanas, e sim, na nossa capacidade de enxugá-las, de diminuí-las, a fim de que possamos perceber e desejar o alimento essencial: Deus. Pois, como nos dizia Jesus, em outra passagem dos evangelhos: "buscai primeiro o Reino de Deus e tudo o mais vos será acrescentado". Por outro lado, quando alimentamos expectativas de que as pessoas é que nos farão felizes, tendemos à frustração, uma vez que nos frustramos na medida das nossas expectativas. Além de que, neste particular, não podemos pedir o infinito ao finito, o absoluto ao relativo. Por isso mesmo, nada e ninguém neste mundo têm condições de saciar a nossa fome e de nos dar felicidade. A saciedade e a felicidade são dádivas de Deus e de ninguém mais. Isto me faz lembrar aquela estória do homem que procurava as chaves de sua casa embaixo de uma luminária na sua rua. Um amigo que passava pergunta-lhe: "você tem certeza de que a perdeu aí?" Ao que ele respondeu: "Não, eu a perdi lá no quintal, mas aqui está mais claro". Então, fica evidente que precisamos procurar a coisa certa, no lugar certo e com os instrumentos certos. Caso contrário, nada feito.
Eis, portanto, o nosso grande desafio: Libertar-nos dos objetos do nosso desejo e descobrir, de fato, o sujeito do nosso desejo. Somente assim, se cumprirá em nós a palavra do evangelho, que diz: "quem vem a mim não terá mais fome e quem crê em mim nunca mais terá sede".